“A união faz a força”. Esse ditado popular foi bastante lembrado ontem durante o 34º Encontro do Comitê Oeste Paulista do Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis, em Bauru. Porém, nem sempre é fácil incorporar o espírito solidário e colaborativo que sustenta o lema da união.

Prova disso é a tentativa de organizar em cooperativas ou associações os catadores de lixo que vivem informalmente na rua. A falta de informação e uma certa resistência e desconfiança em seguir regras coletivas são fatores que têm se tornado dificultadores para que esses catadores se integrem a organizações que têm como base modelos de economia solidária.

Ontem, esse assunto foi discutido durante encontro realizado na Central de Salas do câmpus da Unesp de Bauru, que reuniu 180 catadores de dez cidades da região, grande parte vinda de cooperativas e associações. O evento, que durou o dia todo e também agregou pesquisadores e gestores da área, foi organizado pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp de Bauru, pelo projeto de extensão Incubadoras de Cooperativas Populares (Incop) da Unesp e por órgãos municipais. Estiveram presentes secretários municipais, como Valcirlei Silva, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Sidnei Rodrigues, da Administrações Regionais, e Darlene Tendolo, do Bem-Estar Social (Sebes).

Em Bauru, segundo dados da Sebes, são 761 catadores espalhados pelo município, em sua maioria no bairro Nova Bauru, que abrange mais de 200 deles. Apesar dessa quantidade significativa, apenas 25 deste total estão inseridos na única cooperativa da cidade, a Cooperativa dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis (Cootramat). O salário varia entre R$ 700,00 a R$ 800,00 dependendo da produção.

“As pessoas têm um conceito de que catar papel na informalidade vai trazer benefícios. Não é verdade: é o trabalho coletivo que vai fortalecer. Estamos tentando organizar e reunir catadores de rua visando a inclusão produtiva nas cooperativas”, versou Darlene Tendolo, que comanda a pasta da Sebes. “Em um trabalho coletivo, as regras valem para todos e o resultado depende do empenho de cada um, que fica submetido a seguir horários. Muitos ainda não estão acostumados a assumir este vínculo formal. A falta de informação também atrapalha”, apontou a secretária.

A resistência dos catadores também esbarra em problemas encontrados nas próprias cooperativas: falta de infraestrutura, acúmulo de material a ser reciclado, formação precária e falta de conscientização da população, que ainda não separa o lixo corretamente.

Segundo Cláudia da Silva, integrante da comissão estadual e regional do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e cooperada da Recicla Ourinhos, não basta apenas inserir ou oferecer um emprego para o catador na cooperativa. “Precisamos fortalecer e reunir os catadores, prepará-los, e este trabalho depende de uma articulação entre vários setores: assistência social, saúde, educação”, salientou. “Há cooperativas com 100 a 200 catadores e isso é muito positivo para combater a informalidade e gerar renda. Bauru tem potencial para formar mais cooperativas e assim empregar muitos trabalhadores. O município investe em tantas coisas, por que não melhorar a coleta seletiva?”, pergunta Cláudia.

Para Cláudio Goya, do projeto de extensão Incubadoras de Cooperativas Populares (Incop) da Unesp, Bauru poderia formalizar ao menos seis cooperativas pelo tanto de resíduos sólidos que gera. “Visando isso, estamos tentando aproximar os catadores de rua ao movimento para eles entenderem a necessidade e a importância das cooperativas”, afirmou. “É preciso mostrar a eles que o trabalho nas cooperativas oferece melhores condições de trabalho, mostrar que na hora da venda conjunta há um melhor e maior rendimento. Mas falta ainda perderem a desconfiança diante este tipo de trabalho coletivo”, ressaltou.

“Geralmente, catadores são pessoas que sofreram muito pela vida. Eles têm um certo receio de se integrar ao movimento”, acrescentou Cláudio Goya, que admite que, em Bauru, o modelo de trabalho em cooperativas envolvendo catadores ainda está em fase de desenvolvimento. “Precisamos formar melhor essas entidades e vencer empecilhos de infraestrutura, triagem de lixo, melhorar o rendimento e aumentar o número de cooperados. Há locais em que os trabalhadores chegam a tirar R$ 1 mil por mês”, informou, citando como exemplo a cooperativa de São Manuel, a Associação dos Catadores de Papel e Papelão de São Manuel (Acapel).

O trabalho organizado de reciclagem, ainda, deve ser tido como prestador de serviço pelo município. “A cidade deve pagar pelo serviço prestado, assim como pagaria para uma empresa terceirizada”, enfatizou Cláudia, membro do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.

Alvo na formação

Para Darlene Tendolo, os catadores são trabalhadores importantes para o País e merecem atenção especial do governo. Quando organizados em cooperativas, diversas questões devem ser levadas em conta, como a capacitação. “Os cooperados já atuam com bastante independência e autonomia e queremos dar subsídio para profissionalizar cada vez mais a atividade. Com formação adequada, os catadores podem fortalecer sua gestão e saber como melhor negociar seus próprios materiais”, frisou.

A secretária ainda atentou para questões que envolvem a saúde desses trabalhadores, como a dengue. “Queremos fornecer cursos para capacitação e trabalhar também com informações sobre saúde, tudo o que acomete estes catadores”, discorreu. “A população também precisa aprender a separar lixo corretamente para facilitar o trabalho deles”, acrescentou.

Além disso, Darlene diz que pretende inserir mais pessoas para atuar na Cootramat. “Estamos identificando catadores na informalidade e nosso objetivo é ampliar a cooperativa”, afirmou.

O presidente da entidade em Bauru e também catador, Valmir Moura, diz que a necessidade de mais cooperados é urgente. “O volume de materiais para reciclagem praticamente dobrou este ano, não estamos conseguindo vencer a demanda do dia a dia. Por isso, precisamos ampliar o grupo, colocar mais gente na cooperativa”, anunciou.

Fonte: Mariana Cerigatto - www.jcnet.com.br

Adicionar comentário

Leia com atenção:

Nosso site defende ao máximo a liberdade de expressão, no entanto pedimos que haja responsabilidade ao postar. Todos os comentários são de responsabilidade de seus respectivos autores.

Comentários com assuntos diferentes do Artigo poderão ser excluídos sem aviso prévio, assim como comentários anônimos ofensivos e/ou com denúncias não provadas pelo autor.


Código de segurança
Atualizar